Os coronavírus são uma família de vírus envelopados e com genoma de RNA+. Estão associados a várias patologias respiratórias, entre elas a SARS, MERS e mais recentemente o Covid-19 ou SARS-CoV-2.
No contexto do Covid-19, o método de diagnóstico utilizado para confirmação de infeção de coronavírus é o método de RT-PCR. Este método de biologia molecular permite a deteção de material genético viral, com elevada especificidade em amostras nasofaríngeas colhidas por esfregaço com zaragatoa seca. Contudo, este método de diagnóstico está associado a um elevado número de falsos negativos (muitas vezes associados a colheitas mal realizadas ou ao facto de, no decorrer da infeção, a carga viral poder variar em quantidade e em localização – podendo descer para o trato respiratório inferior).
Para a maioria dos processos infeciosos a serologia é utilizada como meio de diagnóstico – ou seja, estudo do soro sanguíneo para diagnóstico e identificação de anticorpos e antígenos. No entanto, o valor clínico dos achados serológicos vai depender do conhecimento sobre a resposta imune ao microrganismo em causa.
No caso do Covid-19, a resposta imune do organismo humano tem ainda muito por esclarecer e, com o objetivo de diminuir esta falha no conhecimento, Juanjuan Zhao e os seus colegas investigaram a resposta imune ao Covid-19 através da análise das dinâmicas de total número de anticorpos e IgG e IgM específicos produzidos ao longo da infeção.
Os IgM são os primeiros anticorpos a ser produzidos quando há uma infeção, sendo considerados parte da fase aguda da infeção. Os IgG são produzidos mais tarde e são produzidos especificamente para o microrganismo invasor, são ainda capazes de permanecer no sangue, protegendo contra possíveis reinfeções.
No artigo disponibilizado na MedRxiv, a 3 de março de 2020, é reportado como em 161 de 173 pacientes com diagnóstico de Covid-19 se verificou o processo de seroconversão (produção de anticorpos séricos em resposta a um agente infecioso). Esta seroconversão foi sequencial para o total de anticorpos no sangue (11 dias), seguido da produção de IgM (12 dias) e finalmente pela produção IgG (14 dias) específicos para o Covid-19.
A produção de IgG está associada a um estado de imunidade adquirida que pode proteger de uma reinfeção – contudo este assunto não foi discutido no presente artigo devido à impossibilidade de colheita de amostra após fase aguda da doença.
É também demonstrado que ao longo do curso da doença o método de RT-PCR vai perdendo sensibilidade chegando a apenas 45,5% em amostras colhidas a partir de duas semanas após início dos sintomas. Pelo contrário, os testes serológicos demonstraram baixa sensibilidade nos dias iniciais, mas ao longo do curso da doença ganham sensibilidade de 100.0%, 94.3% and 79.8%, para número total de anticorpos, IgM e IgG, respetivamente.
Os autores referem ainda que não foi identificada uma diminuição na carga viral correspondente à seroconversão em todos os pacientes, indicando que a produção de anticorpos pode não ser suficiente para a eliminação do vírus no organismo.
Estas informações levam à conclusão de que o diagnóstico deve ser reforçado por serologia de modo complementar à biologia molecular e ainda que estes testes podem ser usados para compreensão do estado clínico dos pacientes servindo como fator de prognóstico.
Fonte
Zhao, J., Yuan, Q., Wang, H., Liu, W., Liao, X., Su, Y., Wang, X., Yuan, J., Li, T., Li, J., Qian, S., Hong, C., Wang, F., Liu, Y., Wang, Z., He, Q., Li, Z., He, B., Zhang, T., Ge, S., Liu, L., Zhang, J., Xia, N. and Zhang, Z. (2020). Antibody responses to SARS-CoV-2 in patients of novel coronavirus disease 2019.


