A transmissão vertical de um agente infecioso é a transmissão entre mãe e filho e pode ocorrer durante a gravidez ou durante o parto. Existem consequências devastadoras secundárias à transmissão vertical de algumas infeções como o Zika – causando microcefalia nos recém-nascidos – ou o grupo TORCH (Toxoplasmose – Outras doenças – Rubéola – Citomegalovírus – Herpes) que causa também severas malformações caso sejam contraídas durante a gravidez.
Neste sentido várias publicações têm tido como foco a possível transmissão vertical do Covid-19. Em fevereiro 2020, foi publicado um artigo em que foram acompanhados nove casos de mulheres grávidas que contraíram infeção com Covid-19 no terceiro trimestre da gravidez. Foram avaliados os sintomas e a severidade de infeção assim como a possível transmissão vertical. A avaliação de transmissão foi feita através da deteção de material genético viral por RT-PCR em amostras de fluído amniótico, cordão umbilical, leite materno e em zaragatoa com esfregaço faríngeo dos recém nascidos. Quanto à severidade da infeção foram observados padrões clínicos sem diferenças dos restantes pacientes adultos e em nenhum dos casos foi identificada transmissão vertical pelos métodos referidos acima ou por sintomatologia sugestiva. Estes achados são concordantes com o que foi observado em casos de SARS (também um coronavírus, com 85% de semelhanças genéticas com o Covid-19 ou SARS-CoV-2) em que não havia transmissão vertical. No entanto, a severidade de infeção em mulheres grávidas deverá ser mais estudada não só devido à amostra reduzida neste estudo, mas também porque a gravidez leva a um estado fisiológico de imunossupressão e ainda porque, em casos de SARS, a infeção leva a sintomas e consequências muito severas em casos de gravidez.
Mais recentemente, a 16 março 2020, foi publicado outro estudo que aborda a mesma temática. Aqui, foram acompanhados quatro casos de mulheres infetadas também no terceiro trimestre, sendo que três desses bebés foram testados para Covid-19 por RT-PCR em zaragatoa com esfregaço faríngeo e todos deram negativo. Estes resultados reforçam a ideia de que não há transmissão vertical de Covid-19 em casos de infeção no terceiro trimestre.
Apesar de ambos os estudos indicarem que não há transmissão vertical de Covid-19, no primeiro estudo todos os partos foram feitos por cesariana e no segundo três dos quatro foram também por cesariana – isto leva a que não seja possível retirar conclusões sobre a transmissão durante o parto natural. É ainda importante referir que já houve casos de recém-nascidos a testar positivo para Covid-19. No entanto, para estes casos o teste foi feito pelo menos 30h após parto, o que leva também a que poucas conclusões possam ser retiradas sobre o modo de transmissão.
Reforçamos ainda que tendo em conta a sensibilidade deste método, testes adicionais deverão ser efetuados para garantir o diagnóstico.
Fontes
Chen, H., Guo, J., Wang, C., Luo, F., Yu, X., Zhang, W., Li, J., Zhao, D., Xu, D., Gong, Q., Liao, J., Yang, H., Hou, W. and Zhang, Y. (2020). Clinical characteristics and intrauterine vertical transmission potential of COVID-19 infection in nine pregnant women: a retrospective review of medical records. The Lancet, [online] 395(10226), pp.809–815
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0140673620303603
Chen, Y., Peng, H., Wang, L., Zhao, Y., Zeng, L., Gao, H. and Liu, Y. (2020). Infants Born to Mothers With a New Coronavirus (COVID-19). Frontiers in Pediatrics, [online] 8.
https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fped.2020.00104/full


