Loading...

Covid-19: O papel da biologia molecular para o desenvolvimento de terapêuticas

A sequenciação do genoma do SARS-CoV-2 possibilitou o desenvolvimento de testes de diagnóstico altamente específicos, revelou informação muito importante sobre a origem do vírus e permite ainda ajudar no desenvolvimento de vacinas e terapêuticas antivirais.

Através da comparação da sequência genética do SARS-CoV (estirpe associada ao surto de 2002-2004) e do SARS-CoV-2 foi possível identificar diferenças numa região específica da proteína S (ou “spike”) – responsável pelo reconhecimento, ligação e entrada do vírus nas células humanas. Ambas as estirpes de coronavírus são muito específicas para a proteína ACE2. No entanto, a afinidade SARS-CoV-2 com a ACE2 é muito mais forte do que a do SARS-CoV. Esta diferença de afinidades pode sugerir o papel da seleção natural na origem do SARS-CoV-2 e ainda justificar a maior mortalidade associada a este vírus.

Esta descoberta permitiu que um grupo de cientistas investigasse o potencial do uso desta proteína viral como um inibidor da entrada do vírus nas células humanas. Num estudo publicado na revista Nature a 19 de março, a proteína viral responsável pela entrada nas células humanas foi produzida artificialmente e utilizada como tratamento para a infeção com uma forma artificial do SARS-CoV-2. Estas experiências demonstram o potencial da biologia molecular na identificação de alvos terapêuticos, assim como uma possível opção para tratamento da Covid-19 através da inibição da entrada do SARS-CoV-2 nas células humanas.

A 20 de março de 2020, foi também publicado na revista Science uma outra alternativa terapêutica determinada através da análise molecular e bioquímica deste vírus. De modo a “reproduzir-se”, o coronavírus necessita de entrar nas células do hospedeiro e utilizar os recursos do hospedeiro para produzir cópias de si próprio – ou seja, de se replicar. Nesse sentido, um dos alvos terapêuticos já conhecidos para a família dos coronavírus é uma proteína que possibilita o processamento das proteínas virais durante a sua replicação. Neste artigo, é descrito o desenvolvimento de um composto capaz de inibir a atividade desta proteína e, como consequência, a inibição da replicação viral. Foi ainda possível o estudo do modo de administração do composto e do seu metabolismo, revelando uma retenção do mesmo no tecido pulmonar provando ser uma possível opção terapêutica para o SARS-CoV-2.

 

Fontes

Tai, W., He, L., Zhang, X., Pu, J., Voronin, D., Jiang, S., Zhou, Y. and Du, L. (2020). Characterization of the receptor-binding domain (RBD) of 2019 novel coronavirus: implication for development of RBD protein as a viral attachment inhibitor and vaccine. Cellular & Molecular Immunology. [online]

https://www.nature.com/articles/s41423-020-0400-4

 

Linlin Zhang, Lin, D., Sun, X., Curth, U., Drosten, C., Sauerhering, L., Becker, S., Rox, K. and Hilgenfeld, R. (2020). Crystal structure of SARS-CoV-2 main protease provides a basis for design of improved α-ketoamide inhibitors. Science. [online]

https://science.sciencemag.org/content/early/2020/03/19/science.abb3405.full